ALVÉRCIO MOREIRA GOMES

(*) Saudação feita ao Professor Alvércio Moreira Gomes por ocasião de sua aposentadoria compulsória em dezembro de 1986, realizada em sua homenagem na UFRJ, presidida pelo Magnífico Reitor Professor Horácio Macedo.


Comentando sobre a vida do Professor Omar Catunda (l903-l963),do Departamento de Matemática da USP,por ocasião do XXIV Seminário Brasileiro de Análise, o Professor Chaim Samuel Hönig observou que sobre a nossa vida há fatos que podem ser ditos e outros que não podem.

Conhecí Alvércio Moreira Gomes no exame oral de meu vestibular e a seguir, em 1947, como seu aluno no Departamento de Matemática da Faculdade Nacional de Filosofia da extinta Universidade do Brasil. Prometo falar apenas sobre o que dele puder ser dito.

A atmosfera cultural na Faculdade Nacional de Filosofia era extremamente propícia àqueles que, de fato, pretendiam aprender e educar-se em um sentido generalizado. As idéias aí dominantes originaram-se em um grupo de educadores brasileiros, liderados por Anísio Teixeira, cristalizadas nos anos 40, que vinham sendo fermentadas desde os anos 30. Pretendiam organizar uma universidade voltada para a pesquisa básica e o ensino em nível universitário, em oposição ao que existia, constituido apenas por escolas e faculdades isoladas com objetivo meramente profissionalizante. A primeira tentativa nesta direção, foi feita por meio da Escola de Ciências da Universidade do Distrito Federal, fechada por incompreensão, pois a idéia era muito nova na época. Frustrada esta tentativa no plano estadual, vingou a idéia no plano federal com a criação da Faculdade Nacional de Filosofia, constituida de vários Departamentos , entre eles o de Matemática onde ingressei como aluno em 1947, tendo a sorte de lá encontrar uma equipe de bons professores, entre eles o Alvércio a quem prestamos esta justa homenagem.

Fui seu aluno em várias disciplinas e após a conclusão do Curso de Matemática fui proposto auxiliar de ensino do Departamento , continuando a seguir suas aulas bem como as do Professor José Abdelhay e tomar parte nos seminários de matemática que ambos organizavam.

Este período foi decisivo em minha formação cultural. Durante esta convivência, aluno professor, aprendí com você Alvércio, não só certos aspectos técnicos da Matemática, mas a fazer distinção entre a Matemática harmoniosa apresentada nos compêndios e a evolução progressiva das idéias, dúvidas e suas contradições, como parte do desenvolvimento social do homem.

Com esta postura para a Ciência lhe foi possível contribuir para a formação de vários professores daquela época, imprimindo-lhes uma atitude crítica para os problemas não só da matemática mas da sociedade em geral. Assim convivemos vários anos divergindo e convergindo, mas sempre aumentando. Por volta dos anos 60, os problemas sociais brasileiros se agravaram e, consequentemente, os da universidade. O horizonte era turvo.

Em 1962 viajei para o exterior com o objetivo único de aperfeiçoar minha educação matemática, o que foi feito. Retornando em fins de 1965, encontrei os departamentos de Matemática e Física, da Faculdade, desfalcados de parte de seus professores e um ambiente de trabalho asfixiante. A antiga Universidade do Brasil fora metamorfoseada na UFRJ, sendo todos os seus departamentos de Matemática colocados em um reservatório único que denominar-se-ia IMUFRJ. As lideranças foram extintas, as responsabilidades diluidas e criados os mitos do Mestre e do Doutor, à semelhança do operário especializado dos anos 20 nos Estados Unidos. Substituia-se a formação humanística pela especialização mediocrizante. Em lugar de desenvolver ciência fundamental procurava-se sua mera aplicação apelidada de ciência aplicada.

Como reconstituir algo na direção da ciência fundamental, acima salientada? Quem tem convicções e crença tem esperança e de posse desses ingredientes tentamos organizar no IMUFRJ uma estrutura voltada para a pesquisa básica e o ensino em nível universitário, como metas principais de um Instituto Básico de Matemática, Física, Biologia, Química, etc. É longa a história das razões porque não vingou esta idéia como esperava-se. Entretanto, algo restou podendo o Alvércio ao retornar, após a anistia, 16 anos depois, encontrar um pequeno setor do IMUFRJ, onde lhe fosse possível desenvolver seu trabalho e colocar-se ràpidamente em dia com fatos relevantes da matemática atual.

Após este breve histórico que teve como único objetivo examinar o Alvércio imerso nestes dois mundos, isto é, Departamento de Matemática da FNFi e IMURJ, farei breve comentário sobre suas atividades acadêmicas em ambos.

Ao redor de 1948 havia razoável atividade de pesquisa sobre a teoria dos sistemas ordenados, da qual esperava-se forte contribuição a vários ramos da Matemática, tais como Análise e Geometria Projetiva. Tais idéias foram trazidas da Europa para o Brasil por Antonio Aniceto Monteiro, professor do Departamento de Matemática da FNFi. Entre outras contribuições a este novo campo de pesquisa por professores do Departamento, saliento as duas seguintes pelo Alvércio:

- Decomposition of partially ordered systems, Rev. Científica, Ano I, no 2 (1950).

- Compleition by cuts of a distributive lattice, Rev. Científica, Ano 3, nos 2-3 (1952).

Foram comentados no Mathematical Revews da época e citados no livro de Oyestein Ore - Theory of Graphs - Am. Math. Soc. - 1962.

Outro aspécto fundamental da investigação matemática da época era a análise da noção de medida em álgebras ordenadas. Nesta direção ele preparou sua tese de Livre Docente, sob o título: Medida em Álgebras de Boole. Curioso! Todos os concursos de Livre Docente foram realizados no Departamento, exceto o do Alvércio. Note-se que a livre docência era pré-requisito legal para a inscrição ao concurso de cátedra.

Além dos trabalhos de pesquisa citados, escreveu vários textos didáticos contribuindo consideravelmente para facilitar o aprendizado de tópicos difíceis, da matemática daquela época. Entre eles devemos citar: Introdução à Álgebra Moderna - Publ. da FNFi, Série Científica no 2, (1960) ; Séries de Fourier - Publ. da FNFi, Série A no 10, (1953).

Imerso no IMUFRJ, constitui-se o Alvércio em uma substancial contribuição ao ensino e à pesquisa. Tendo passado 16 anos afastado da Universidade, em pouco tempo colocou-se em dia com os últimos acontecimentos da Análise Matemática atual, contribuindo com suas excelentes aulas, participando ativamente dos seminários de pesquisa, tendo também escrito os dois seguintes textos didáticos oriundos de suas aulas no IMUFRJ:

- Equações Diferenciais e Semigrupos de Contrações Não Lineares em Espaços de Hilbert, Textos de Métodos Matemáticos no 15, IMUFRJ, (1982).

- Semigrupos de Operadores Lineares e Aplicações às Equações de Evolução, Textos de Métodos Matemáticos no 19, IMUFRJ, (1985).

Agradeço a você Alvércio, bem como aos seus colegas dos Departamentos de Matemática e Física da Faculdade Nacional de Filosofia pela substancial contribuição que deram à educação dos jovens de minha geração.

Continue com essa esperança inabalável; esta esperança filosófica que nos faz aguardar anciosos o que vai nascer mas não nos deixa desesperar se não houver nascimento algum durante nossa existência.

Luis Adauto da Justa Medeiros


Alvércio Moreira Gomes

(1916-2003)


Nasceu em Cachoeiro de Itapemirim, Espírito Santo, aos 26 de setembro de 1916, imerso em uma família de origem rural, membro de uma clam de douze filhos. Completou sua educação primária e secundária em Cachoeiro, onde concluiu seus estudos no Instituto de Educação local, preparando-se, bem cedo, para exercer o magistério, sua vocação. Ao chegar ao Rio de Janeiro, em 1937, ingressou na Universidade do Distrito Federal, onde completou seu bacharelado em Matemática e, posteriormente, iniciou sua carreira universitária como assistente de José Abdelhay na Cátedra de Análise Matemática e Superior do Departamento de Matemática da Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi), da Universidade do Brasil (UB).

Tive oportunidade de conhecê-lo, como meu examinador, em 1947, no vestibular para a FNFi e, posteriormente, em 1948, como meu professor na disciplina de Álgebra, baseada no texto G. Birkoff and S. Mac Lane, A Survey of Modern Algebra, the Macmillan Company, N.Y., 1948. Nesta época, a Matemática no Brasil iniciava um período de grande desenvolvimento por meio do Departamento de Matemática da FNFi. Muito talentoso e corajoso, Alvércio se propunha, desde aquele tempo, penetrar em áreas novas da Matemática como verdadeiro pioneiro.

Ele exerceu influência marcante na organização e planejamento da pesquisa e ensino da Matemática na FNFi, dos anos 40 aos 60, influenciando boa parte dos jovens da época que para lá se dirigiam.

Via a matemática não apenas como um organismo lógico se desenvolvendo por si mesma isolada do contexto social, no qual estava imerso o matemático. Não! Para ele, a ciência e a arte de Euclides nascia da evolução do pensamento social e, por esta razão, em sua visão, o professor não tinha o direito de se isolar e se proteger em um castelo, dissociado do restante dos problemas que afligem a sociedade, como, aliás, acontece em geral. Motivado por esta maneira de pensar, dedicava-se a várias questões, por exemplo: a campanha do petróleo nos anos 40, a histórica manifestação nacionalista “O Petróleo é Nosso”. Recentemente, tomava parte ativa na campanha em defesa da Amazônia e preservação do meio ambiente. Na UFRJ participou das “Quartas Culturais”, atividade organizada pelo Centro de Tecnologia da UFRJ, convidando especialistas para dissertarem sobre temas sociais, em sua maioria de âmbito nacional.

O período dos anos 40 aos 50 foi de bom desenvolvimento da Matemática no Rio de Janeiro localizado na FNFi. Havia um fluxo permanente de professores visitantes trazendo novas idéias bem assimiladas e desenvolvidas pelos professores do Departamento. Iniciava-se a investigação da aritmética dos conjuntos ordenados e da topologia geral, na FNFi, motivado pelas idéias de Aniceto Monteiro, professor visitante naquela época. Alvércio engajou-se, sem dificuldade, neste projeto, obtendo alguns resultados originais publicados posteriormente. Entre eles destacam-se:

Estes trabalhos foram comentados no Mathematical Reviews da época e citados no livro: Oyesteim Ore, Theory of Graphs, Am. Math. Soc. Coloquium Pl. 1962.

Outro aspecto fundamental da investigação matemática da época foi a análise da noção de medida em álgebras ordenadas. Nesta direção preparou sua tese de Livre Docente sob o titulo: “Medida em Álgebras de Boole”. Este concurso nunca foi realizado. Note-se que a livre docência era pré-requisito para a inscrição nos concursos de acesso às cátedras.

Desenvolveu eficiente atividade didática na FNFi durante os anos 40 a 60, editando textos didáticos tais como:

Em 1964 houve uma mudança do sistema político no Brasil motivado por um movimento militar. Vários professores foram compulsoriamente aposentados entre eles o Alvércio. A Universidade do Brasil foi transformada na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a FNFi foi extinta. A nova estrutura universitária compunha-se de Institutos. Entre eles, foi criado o Instituto de Matemática que congregou todos os departamentos de matemática das Faculdades da Universidade do Brasil. As cátedras foram extintas e extinta foi a vitaliciedade dos catedráticos que passaram a ser denominados Titulares.

Durante os anos 80 os ventos internacionais sopraram em outra direção e houve a anistia para os aposentados de 64. Assim, retornou o Alvércio integrando-se ao corpo docente do Instituto de Matemática da UFRJ. Imerso neste novo ambiente, rapidamente colocou-se em dia com os novos caminhos da Análise Matemática, contribuindo com excelentes aulas e participando dos seminários de pesquisa que se realizam semanalmente no Instituto. Nesta nova fase, publicou:

Aposentou-se aos 70 anos, na compulsória, continuando, entretanto, a trabalhar no IM-UFRJ, com o mesmo entusiasmo e dedicação até dezembro de 2002.

Faleceu dia 18 de março de 2003. Teve como companheira de muitos anos Hilda Pires dos Reis, pianista e Professora Titular da Escola de Música da UFRJ. Sua vida familiar foi de uma riqueza notável. Sendo o primeiro dos irmãos a se estabelecer no Rio de Janeiro, após o falecimento de seu pai, trouxe o restante da família, tendo contribuído para a educação de todos: alguns professores, outros médicos. Como colega e professor sempre deu o exemplo da solução inteligente para as dificuldades do dia a dia. Otimista, muito dialético, sempre esperou o nascimento de coisas novas e agradáveis, mas, preparado para aceitar os reveses, o que fez com tranqüilidade exemplar. Obrigado amigo.


Rio de Janeiro, maio de 2003


Luis Adauto Medeiros