OTTO DE ALENCAR SILVA

Otto de Alencar Silva (1874-1912) nasceu em Fortaleza, Ceará, filho de Silvino Silva e Maria Alencar Silva. Primo pelo lado materno, do escritor José de Alencar (1829-1877).

Após concluir seus estudos secundários em Fortaleza, Otto de Alencar transferiu-se para a cidade do Rio de Janeiro para matricular-se na Escola Politécnica. Em 1893, aos dezenove anos de idade, graduara-se em engenharia civil. Fixara residência na cidade do Rio de Janeiro, onde falecera em fevereiro de 1912.

Estimulado pelo pai, comerciante da praça do Rio de Janeiro, passara a estudar, sem orientação de alguém, Matemática, Física e Astronomia. Passara a se atualizar nestas áreas das ciências tendo como referencial o desenvolvimento científico europeu. Entre 1895 e 1902 exercera a livre-docência na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, ministrando aulas sobre Geometria Analítica, Cálculo Diferencial e Integral, Mecânica Racional. Em 1902 fora nomeado professor substituto interino para a seção de Física, Astronomia e Topografia da Escola Politécnica. Em 1907 a Congregação da Escola Politécnica o indicara para o cargo de professor substituto efetivo, dispensando-o da realização de concurso público de provas e títulos em virtude do valor científico de seus trabalhos publicados, bem como da excelência de suas aulas ministradas na Escola. Fora então nomeado, em 1907, professor substituto efetivo.

Otto de Alencar passara a publicar trabalhos científicos a partir de 1897. Fora um pioneiro da pesquisa matemática séria no Brasil. Ele produzira trabalhos de ponta para os padrões científicos no país da época. Passara também a ser criticado por alguns de seus pares, bem como pela direção da Escola Politécnica. A este respeito ele escrevera a um de seus amigos o Barão de Stuart. Passara a adquirir livros de renomeados autores europeus e, a divulgá-los entre colegas e alunos da Escola Politécnica. Dentre os livros Por ele divulgados citaremos os seguintes: "Traitté d'analyse", de E. Picard; "Cours d'analyse mathematique", de E. Goursat; "Cours d'analyse", de C. Hermite; "Cours d'analyse de l'École Polytechnique", de C. Jordan. Passara também a incentivar seus bons alunos ao estudo sério das Matemáticas. A este respeito dissera em um de seus artigos, M. Amoroso Costa, que fora seu aluno: "[...]. Como professor, Otto de Alencar teve o dom inestimável de saber despertar a curiosidade dos seus discípulos [...]. O seu ensino era admirável, no fundo como na forma, e dele data uma completa renovação dos nossos estudos matemáticos; não tem conta as idéias e os livros que divulgou entre nós[...]".

Ao perceber o anacronismo da ideologia positivista de A . Comte no que dizia respeito ao desenvolvimento das Matemáticas, bem como ao seu ensino no Brasil, Otto de Alencar passara a se rebelar contra a influência daquela ideologia sobre a incipiente comunidade científica brasileira de então. Por meio de sua postura científica na qual postulava também o conceito de ciência não-acabada, aberta, isto é, o conceito de que a ciência não deveria ser constituída apenas de sua parte que estava pronta, contrariando desta forma boa parte do ideário comtiano, (relembramos que a Escola Politécnica de sua época fora um dos redutos da ideologia comtiana), Otto de Alencar iniciara em 1898, o ciclo de ruptura da influência do positivismo comtiano sobre a elite intelectual brasileira. Ele, apesar de solitário passara a representar a trilha por meio da qual os mais lúcidos membros da elite intelectual brasileira iriam acompanhar e solver a evolução das ciências, em particular, das Matemáticas que ocorria no velho continente.

O ciclo de ruptura acima referido fora continuado por matemáticos, biólogos, geólogos, astrônomos como M. Amoroso Costa, Theodoro Ramos, Lélio Gama, Oswaldo Cruz, Adolpho Lutz, Carlos Chagas, Arthur Moses, H. Morise, dentre outros.

Otto de Alencar também demonstrou interesse e preocupação pelo aspecto didático das Matemáticas. Alguns de seus artigos publicados refletem este fato, pois alguns deles abordam temas de suas aulas ministradas na Escola Politécnica.

Em 1898, Otto de Alencar publicou, no Brasil, o artigo "Alguns Erros de Matemática na Síntese Subjetiva de A . Comte", no qual ele apontara e corrigira erros de conteúdo cometidos por Comte em sua obra "Síntese Objetiva". A partir de então, ele fora muito criticado pelos adeptos de Comte. Em 1901 Otto de Alencar completara seu trabalho de reparação científica sobre a obra de Comte acima citada, ao publicar outro artigo em uma revista portuguesa e dirigida pelo renomado matemático F. Gomes Teixeira(1851-1933).

Otto de Alencar percebera a importância, para um cientista, do contato com seus pares para a troca de idéias, apresentação e discussão de seus resultados científicos obtidos. Desse modo, mesmo não tendo jamais viajado à Europa, ele mantivera correspondência científica com alguns dos renomados matemáticos europeus de sua época, dentre eles, F. Gomes Teixeira, G. Darboux e H. Poincaré. Por correspondência, Otto de Alencar apresentara ao matemático F. Gomes Teixeira alguns de seus colegas e alunos interessados nos estudos sérios das Matemáticas.

Otto de Alencar participou ativamente (como membro de uma subcomissão e apresentado um trabalho) do 3o Congresso Científico Latino-Americano, que fora realizado de 6 a 16 de agosto de 1905, na cidade do Rio de Janeiro.

Listaremos a seguir alguns dos artigos publicados por Otto de Alencar.

O Teorema de Lancret e uma nota sobre a equação de Riccati. Rev. Esc. Poli. Rio de Janeiro, vol.1, no 4, 1897, pp. 113-121

Alguns erros de matemática na Síntese Subjetiva de A . Comte. Rev. Esc. Poli. Rio de Janeiro, vol.2, no 9/10, 1898, pp. 13-130.

Quelques erreurs de Comte. Jornal de Cienc. Mat. Físicas e Naturais, tomo VI, no XXIII, 1901,pp. 100-104.

Sur L'équation de Riccati. Bulletin Sciences Mathématiques, tome XXV, vol. XXXVI, 1901, pp. 97-98.

A fórmula de Stokes. Rev. Esc. Poli. Rio de Janeiro, vol. 2, no9/10, 1898, pp. 156-161.

A superfície mínima de Riemann. Ver. Esc. Poli. Rio de Janeiro, vol. 3, 1898, pp. 137-144.

A teoria de Maxwell e as oscilações hertzianas. Rev. Esc. Poli. Rio de Janeiro, vol. 3, no 1, 1899, pp. 5-6.

Aplicações geométricas da equação de Riccati. Rev. Esc. Poli. Rio de Janeiro, no 1, 1904, pp. 83-149.

Lições sobre a teoria das funções simétricas. Rev. Cursos Esc. Poli. Rio de Janeiro, no3, 1906, pp. 1-42.

Lições sobre a teoria da Lua. Rev. Cursos Esc. Poli. Rio de Janeiro, no3, 1906, pp. 77-128.

Sobre a lei de refração de Descartes. Rev. Did. Esc. Poli. Rio de Janeiro, no 1, 1907, pp. 5-11.

Uma identidade em funções elípticas,. Ver. Did. Esc. Poli. Rio de Janeiro, no 2, 1908, pp. 3-4.

Sobre a teoria dos covariantes e das curvas de dupla curvatura. 3o Congresso Científico Latino-Americano, Relatório Geral, tomo II, livro A, Rio de Janeiro, 1905, pp. 13-47.

Curitiba, novembro de 1997

Clovis Pereira da Silva