4. Emerência
 
Discurso Proferido pelo Professor Luis Adauto da Justa Medeiros, na  Sessão  Solene do Conselho  Universitário,  para a entrega  do seu Título de Professor Emérito da UFRJ, no dia 12 de agosto de 1997.
 
 
Presidente da Sessão:
Magnífico Reitor em exercício – Professor José Henrique Vilhena de Paiva
    Componentes da mesa:
    Professora Maria Laura Leite Lopes (Professor Emérito)
    Professora Neyde Felisberto (Sub Reitora de Ensino de Graduação e Corpo Discente)
    Professor Marco Antonio Faria (Decano do CCMN)
    Professor Luis Paulo Vieira Braga (Diretor do Instituto de Matemática).
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
1. Chegada ao Rio em 1944
 
Difícil é saber por onde iniciar um histórico, principalmente quando se trata de uma revisão de nossa própria vida. O Braz Cubas escolheu iniciar pelo fim, enquanto o Rei ordenou ao Coelho Branco, na imaginativa ficção de Lewis Carrol, que lesse o poema começando do começo, fosse até o final e então parasse. Entre os dois extremos, escolhemos começar de uma data mais próxima para não ficar cansativo para as pessoas generosas que nos ouvem prometendo ir até o final.
Assim, começaremos em 1944 quando chegamos ao  Rio de Janeiro, acompanhado de nossos pais. Deveríamos concluir o curso científico, em três anos, ingressando, a seguir, na Faculdade Nacional de Medicina. Após a conclusão do curso deveríamos retornar à Fortaleza, no Ceará, nos dedicando à arte de curar continuando o trabalho de médicos da família que estavam próximos a serem substituídos: um Justa , outro Medeiros. Sendo nós Justa Medeiros teríamos o caminho facilitado, afirmava meu pai.
2. Colégio Anglo Americano
 
Ingressamos no Colégio Anglo Americano onde deveríamos cumprir a primeira etapa do projeto. Lembramo-nos de Raul Pompeia: "Vais encontrar o mundo disse meu pai à porta do Ateneu. Coragem para a luta". Várias recomendações nos foram feitas. Em lugar de Aristarco lá estava o Mr. Wright diretor do Colégio. Encontramos um excelente corpo de professores entre eles o de matemática, Silvio Pinto Lopes, antigo assistente do Dr. Lelio Gama na UDF, que nos ensinou durante três anos. Certa vez conversando consigo contamos o nosso plano. Ele  observou que na Faculdade de Medicina não estudaríamos matemática. O local apropriado para a formação de matemáticos e de professores era a Faculdade Nacional de Filosofia.
3. Ingresso no DM da FNFi em 1947 - Formado em 1952
Viagem ao USA
 
Em 1947 ingressamos, como aluno, no Departamento de Matemática da FNFi, sendo esta etapa decisiva em nossa educação num sentido geral. O ambiente cultural desta unidade da Universidade do Brasil era excelente. Convivíamos com colegas de vários cursos e de múltiplos interesses. Às sextas, à noite, havia o educativo “Clube de Cinema” dirigido por Plínio Rocha, nosso professor de Mecânica. Pensávamos que estávamos caminhando  para um mundo livre e justo, bem longe do que hoje vivemos. Em resumo, tínhamos várias opções culturais em um pequeno prédio de seis andares situado à Avenida Presidente Antonio Carlos, 40.
Concluímos a licenciatura em Matemática no ano 1952 e José Abdelhay, catedrático da cadeira de Análise Matemática e Superior, nos convidou para seu assistente. Confessamos que nos sentimos realizadíssimos. O salário que iríamos receber mal dava para pagar o aluguel do apartamento onde morávamos. Seria, entretanto, uma oportunidade para permanecermos em um bom ambiente de trabalho. Acredito que os administradores da época ainda não viam com clareza a importância do tempo integral pelo menos para os jovens que iniciavam a carreira acadêmica. É oportuno mencionar que em 18 de dezembro de 1948, José Leite Lopes, ao tomar posse na cátedra de Física Teórica e Superior na FNFi, se dirigiu à Congregação e entre outras observações significativas, chamou a atenção para a importância do tempo integral na Faculdade, imprescindível aos Departamentos que desenvolviam pesquisa básica e ensino. Note-se como tudo no pais caminha lento, quando se trata de educação. O que Leite Lopes sugeriu em 1948 só começou a ser efetivado, mesmo timidamente, apenas nos anos 70 e hoje não sabemos o rumo que tomará.
Após entendimentos com José Abdelhay fomos trabalhar com Leopoldo Nachbin o que seria uma continuação natural de nossa formação anterior. Recebemos uma bolsa do CNPq e, após dois anos, Nachbin sugeriu-nos que fossemos para os Estados Unidos. Desenvolvemos um projeto de pesquisa com Felix Browder,  durante dois anos na Yale University e um ano na Universidade de Chicago. Os resultados de nosso trabalho de pesquisa com  Browder, constituíram-se de nossa tese de doutorado aprovada por uma comissão organizada pela direção do IMPA e publicada posteriormente no Transations of the American Mathematical Society.
4. Retorno ao Brasil
 
De volta ao Brasil em 1965 estava o pais totalmente modificado. Não mais encontramos os colegas de trabalho que deixamos nem alguns antigos professores. Haviam sido aposentados.
Nachbin tinha em mente organizar, de modo formal, a pós graduação no IMPA já iniciada por Maurício Matos Peixoto. Ainda não tínhamos tempo integral. Lindolpho de Carvalho Dias obteve financiamento do BNDE para o IMPA que passou a funcionar à Rua Luiz de Camões. Houve uma grande procura de excelentes alunos que concluíram, nesta fase, seus estudos no IMPA. Tudo caminhava muito bem naquele "engano da alma ledo e cego que a fortuna não deixa durar muito", quando surgiram as contradições e tivemos que sair do IMPA indo para o CBPF, onde tivemos forte apoio de Alfredo Marques, Diretor Científico do CBPF na época. Posteriormente todos os que compunham a equipe que trabalhava no IMPA transferiram-se para o IM-UFRJ, tentando erguer novamente o rochedo  ao  topo  do monte  qual  Sisifo  em  seu  absurdo  castigo.
Foi possível devido a Guilherme De La Penha que, à semelhança do que se passara, obteve suporte para desenvolvermos a pós graduação em matemática no IM-UFRJ. Ele era Diretor do Instituto e nós Diretor Adjunto para Graduados e Pesquisa. Planejamos a pós graduação, organizando, juntamente com Nachbin, uma forte equipe de Análise Matemática e Equações Diferenciais Parciais, projetando o IM-UFRJ no cenário internacional, com conseqüências positivas para a educação do Pais, o que se mantém até hoje.
 
5. Instituto de Matemática - UFRJ
 
Foi fundamental o apoio de vários matemáticos com quem mantínhamos correspondência, originários dos Estados Unidos, da França, de Israel, do Japão, da Itália e da União Soviética. Entre eles destacamos Jacques Louis Lions , Haim Brezis, Felix Browder e Walter Strauss, cujo apoio ao nosso trabalho no IM foi e continua sendo decisivo. Conhecemo-nos desde 1965 e em uma das visitas de Lions ao IM o apresentamos ao Lindolpho, Diretor do IMPA na época. Daí o apoio que deu à alguns matemáticos do IMPA e ao desenvolvimento da matemática no país por meio da União Internacional de Matemática da qual era presidente.
Planejamos um programa de visitantes para desenvolver cursos e ditar conferências sobre assuntos recentes para auxiliar no projeto de pesquisa que tínhamos em mente. Os melhores alunos, quando concordaram, foram sempre encaminhados a excelentes centros de matemática do exterior. Os recursos humanos formados neste projeto encontram-se atuando em várias universidade brasileiras e na Faculdade de Ciências da Universidade Nacional Mayor de San Marcos em Lima, Peru, da qual somos Professor Honorário.
Organizamos com De La Penha em 1977 um Simposium Internacional sobre Mecânica do Continuo e Equações Diferenciais Parciais, com participação de excelentes representantes das duas áreas. Este Simposium projetou ainda mais o IM no panorama internacional. Várias outras reuniões foram organizadas e realizadas no IM, por exemplo, o Seminário Brasileiro de Análise, já completando 23 anos de existência aconteceu uma dezena de vezes no IM.
O Instituto de Matemática é uma instituição bem estruturada, apesar de ter tido algumas administrações não à altura de seus reais objetivos. Os professores, em sua maioria,  estão bem preparados para realizarem, com eficiência, as tarefas do ensino básico de matemática. O IM abriga equipes desenvolvendo projetos de pesquisa e, todos juntos, dão significativa contribuição à educação do nosso pais.
No momento, com a crise de recursos para a educação, a Universidade é fortemente atingida e por conseguinte o Instituto de Matemática. Necessário seria haver representantes  da UFRJ nos conselhos e comitês que administram os recursos destinados à pesquisa em Matemática, principalmente na CAPES, CNPq e FAPERJ. Pertencemos a estes comitês e sabemos quão importante é a representação autentica da UFRJ.
Durante estes anos de trabalho procuramos abrir os olhos de nossos alunos para o aspecto cultural da matemática. Nunca estimulamos este exagero de publicações de trabalhos. Usamos como método procurar entender os grandes resultados da ciência estando sempre atento ao que existe de novo, realmente de qualidade sem esquecer todavia o processo criativo.           
Costumamos sempre dizer que a matemática como  ciência ou arte é um forte instrumento de comunicação entre homens e mulheres independente de religião, convicções políticas ou grupos étnicos e que jamais deve ser usada como objeto de dominação. Acima de tudo está a educação no pais que deve ser prioritária.
Chegando ao final, importante é salientar que isolados não conseguiríamos realizar o que projetamos. Portanto, minha gratidão à Lourdinha, minha mulher, companheira de 43 anos, durante os quais me transmitiu alegria e entusiasmo uniformes. Hoje, sinto que as duas pessoas diferentes que éramos muito se parecem com uma única. Aos meus filhos Luiz, Sergio, Laura, Kathia, minhas noras, meus genros e meus netos que muito me estimulam para esta vida tranqüila que tenho.
Nossos agradecimentos aos amigos e colegas do Departamento de Métodos Matemáticos que propuseram à Congregação do IM o honroso título que hoje nos conferem, aos amigos do Departamento de Matemática Aplicada, das Universidades do Pará, Paraíba, Fluminense, UNIRIO, Maringá, Londrina, Santa Catarina, Santa Maria e da Faculdade de Ciências da Universidade de San Marcos que sempre nos prestigiaram, bem como à Direção da Sociedade Brasileira de Matemática Aplicada e Computacional (SBMAC) e ao LNCC.
Ao Sr. Decano do CCMN, Marco Antonio Faria pelo interesse na  tramitação do processo e seu reconhecimento inequívoco; à Sra. Sub Reitora de Graduação, Neyde Felisberto amiga de longa data, pela atenção e apoio que sempre nos dispensou.
Ao longo desta caminhada sem fim, alguns amigos desapareceram. Todos estão guardados, com saudade, na memória.
Concluindo, lembramo-nos do Padre José Maria, do Memorial de Maria Moura da Rachel de Queiroz, ao dizer: "A gente por onde anda cria amor e desamor e vai deixando atrás de si aqueles pedaços de coração - Bem querer ou ódio".
Muito obrigado